Nº 4 – EPIDERME

PROJETO 1 X 1 – UM TEXTO, UMA IMAGEM

Voltando aqui com um processo criativo muito diferente do que imaginamos quando pensamos em arte. Muitas vezes até esquecemos desse ofício arteiro tão desafiador.

Tive a honra de, desta vez, poder fazer um projeto com uma amiga bem próxima! Quem está comigo refletindo sobre a criação é Gabriela Lacerda, artista, tatuadora, estudante de Artes Visuais e em quem pensei bastante enquanto estava escrevendo o poema EPIDERME.

Gabi é uma minha ponte para a juventude, assim como outros jovens com quem tenho convívio. Aprendo muito e tento ouvi-los para compreender suas decisões em busca de suas liberdades!

Aqui, nossa reverência aos jovens e aos artistas que são indagados com a pergunta: “Mas isso é profissão?”

Divirtam-se!

A ARTE

Com a palavra, a artista Gabriela Lacerda:

“A liberdade, pra mim, tem que ser conquistada, e, quando conquistada, deve ser gozada com moderação. Um exagero em ser livre pode acabar com toda a liberdade que você poderia ter na vida. E confesso que a liberdade, para ser um(a) tatuador(a), ainda não é totalmente bem-vinda, não é visto como uma profissão de verdade; é “coisa de vagabundo”, “coisa de bandido”, “não é arte” – muitos dizem.

Não sei o que se passa na cabeça de meus familiares e amigos, embora tenha um bom apoio. Mas ninguém espera que queiramos isso para nossas vidas, acham que é algo temporário. Para alguns tatuadores pode até ser temporário, mas ninguém quer/espera que um estudante de engenharia mude de ideia quanto a seu curso e trabalho, diferente de quando se fala que trabalha fazendo tatuagem; como se fosse um delírio/uma brincadeira que uma hora passa, como se todas as outras profissões não tivessem a possibilidade de serem fases.

Tatuadores também são artistas e pessoas que merecem viver com suas escolhas respeitadas e dignas. Ser tatuador é fazer uma arte na pele que pode ir conosco até o túmulo, vai além de qualquer bem material que possuímos em vida. Tatuadores não têm que receber mau olhado só por tatuarem. Todas as pessoas merecem respeito, liberdade para exercerem suas profissões e liberdade para viverem suas escolhas.

 Por isso, a Estátua da Liberdade, na Ilha da Liberdade, teve muito significado nesse projeto. Senti que casava muito com o poema e minha vida. Faltava trabalhar em cima da Estátua e trazer a ideia de tatuagem para o desenho. A Estátua segurando uma máquina de tatuagem parecia a cereja do bolo.

O processo para chegar a esse projeto exigiu de minha criatividade. Matutei durante um tempo até chegar aonde cheguei, testei outros modelos até acertar com esse. Li e reli o poema várias vezes para elaborar uma ideia em minha mente. Acredito que a parte mais difícil de uma criação seja a ideia.

Depois de algumas releituras e ideias que não saíram como eu esperava, decidi pesquisar monumentos famosos pelo mundo. Não sou do tipo que “paga pau” pra um país em específico, todos têm coisas ruins, mas também paisagens e culturas encantadoras, mas quando vi a Estátua da Liberdade e sua história, senti que era o monumento certo.

Pesquisei imagens na internet, tanto da estátua, quanto de máquinas de tatuagem, já pensando em como encaixar uma na outra. Após minhas pesquisas e várias imagens salvas, usei um aplicativo de criação semelhante ao PhotoShop para poder desenhar em cima das imagens. Nas primeiras vezes não deram certo e tive que pensar em um novo mix de imagens para serem trabalhadas.

Após horas utilizando borrachas e pincéis digitais, encontrei o que procurava. Imprimi e fiz o decalque, que considero a parte mais importante de uma tatuagem; um traço errado e pode estragar todo seu trabalho.

Após esse momento de precisão exigida, chegou o momento de passar para o E.V.A (uma outra opção mais acessível financeiramente para treinos de tatuagem, substituindo o uso de pele de porco ou pele artificial). Não é lá o melhor material, mas ajuda a ficar cada vez melhor nos traços.

Utilizei diferentes tons de preto com a mesma tinta. Tatuar é o momento que exige calma e paciência para fazer cada traço do jeito que deve ser feito, exercitando força e equilíbrio nas mãos. Depois de duas horas e meia, pude ver a obra terminada e toda minha liberdade eternizada naquele pedaço de E.V.A.

Fiquei muito feliz com o resultado.”

O POEMA

A provocação que recebi para escrever EPIDERME foi: escreva algo que não se consiga decifrar logo no começo e que seja relacionado à profissão.

Desafio para ser concluído em poucos minutos, comecei a pensar sobre profissões com a intenção de sair da obviedade.

Pensar no outro, estabelecer uma conexão com o outro é fundamental para a convivência em sociedade. Ao mesmo tempo, há imposições que o próprio sujeito sofre porque acredita-se que a vida tem de ser gerida em um único recipiente ou em lugares comuns e predeterminados.

Mas, como se diz por aí: #sqn.

O texto originário é uma prosa, mas curta que o poema que eu lhes apresento. Fiz exercícios de voz narrativa, passando a prosa para a 1ª pessoa, depois de ter feito na 3ª pessoa. Ainda assim, não tinha ficado satisfeita com o resultado. Então, resolvi mudar a forma: da prosa para o poema.

O tema me veio com força e de imediato, lembrando das pessoas, sobretudo jovens, que traçam um caminho profissional se contrapondo à sociedade e, particularmente, aos desejos daqueles mais próximos.

O título veio de uma música…

Porque a arte, aqui moldada na tatuagem, é ofício, profissão. E ponto final.

E aí, o que acharam?

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